O Brasil segue formando poucos matemáticos no momento em que a necessidade por esses profissionais cresce em todo o mundo. A demanda vem na esteira de tecnologias cada vez mais dependentes de modelos complexos ou de tratamento massivo de dados. Entre as causas do déficit de profissionais, matemáticos de renome citam a falta de políticas públicas aderentes às necessidade econômicas, o subfinancimento da pesquisa científica e equívocos no ensino básico a crianças e adolescentes.

O Censo da Educação Superior, divulgado este ano pelo Ministério da Educação (MEC), apontou que nos últimos oito anos o Brasil manteve média próxima a 2 ingressantes e apenas 0,7 concluintes a cada 10 mil habitantes nos cursos superiores de ciências naturais, matemática e estatística. Os números marcam essas carreiras como as menos procuradas entre as 10 áreas consideradas pelo MEC. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a quantidade de matriculados nessas carreiras a cada ano é o dobro da média brasileira e o número de formados é mais do que quatro vezes maior, 2,7 a cada 10 mil pessoas.

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Foto: Leo Pinheiro / Valor

Segundo o presidente do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), Marcelo Viana, a matemática sempre teve papel decisivo na criação de novas tecnologias, mas isso tem se intensificado “de forma exponencial” nos últimos anos. “Governos e empresas em todo o mundo têm demonstrado atenção a este fenômeno, mas, no Brasil, isso está passando um pouco despercebido”, diz.

Na falta de estudos sobre a realidade brasileira, Viana cita levantamento da consultoria Deloitte, apontando que, ainda no início dessa década, em países desenvolvidos como o Reino Unido, 10% a 11% dos empregos já se concentravam em profissões com forte teor matemático e que essas atividades contribuíam com até 16% do Produto Interno Bruto desses países. Aplicadas estas conclusões à realidade brasileira, as chamadas atividades matemáticas movimentariam perto de R$ 1 trilhão todos os anos. “Não tenha dúvida de que esses números cresceram desde então”, afirma Viana.

“A tragédia é que a matemática é quase invisível ao passo que está cada vez mais onipresente”, afirma o estudioso. Como exemplos, cita a migração contínua da atividade econômica para o mundo digital, apoiada em matemática, ou o desenvolvimento das diferentes gerações de aparelhos celulares cada vez mais modernos. “No tempo da televisão analógica, a matemática envolvida era relativamente pequena, mas, hoje, se você está assistindo futebol, a qualidade da imagem é resultado de uma modelagem super sofisticada que ajusta a resolução das partes mais importantes da transmissão em tempo real”, exemplifica o presidente do Impa. A longa lista de exemplos abarca aplicações tradicionais, como as das indústrias aeroespacial e automobilística, até casos mais recentes, como os modelos capazes de predizer a eficácia de medicamentos na indústria farmacêutica.

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